Febril e enovelada, com vontade de ter guelras e ir viver para um filme. Para este.
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Fechei há dias, em momentos de isolamento no papel muito respeitados pela companhia de viagem, o Disgrace. Segue-se a prova do quão bom é. Há minutos, num telefonema, a propósito de vinhos, conto a história de um amigo “já nem sei bem qual” que levou um “late harvest” para um jantar e teve de o beber sozinho pois não fora apreciado pelos donos da casa, que além de quase abstémios o abriram para acompanhar a refeição. O “amigo”, acabo de perceber, que a minha senilidade ainda é intermitente, foi o ficcional David Lurie na sua visita de expiação de culpas aos pais da sua amante-aluna.
Ando também em busca de um “spoiler” que nos últimos dias tenho pensado muitas vezes no seguinte: naquela séria em que Toni Collete tinha múltiplas personalidades (thumbs up para a camionista e para a entidade sub-humana), qual era afinal o acontecimento responsável por tão maravilhoso e libertador distúrbio?
Note to self: das duas uma; ou arranjar forma de limitar melhor realidade e ficção, ou baralhá-las de uma vez por todas….
escolhi o meu cheiro por ser uma granada flowerbomb, um caminho por ter mais curvas que o fácil dá bocejite, um carro por causa de um filme holly goligthly, os amigos pelas gargalhadas altas baixas longas lacrimosas, tema de tese pela poesia na urgência das coisas aparentemente inúteis l’écume des jours, um anel leve pela história pesada o vosso, escolher-te-ei a ti um dia porque corresponde(rá)s à (in)exacta descrição de coragem daquele poema da Sophia porque
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Will it tear us apart again?
may i feel said he
(i’ll squeal said she
just once said he)
it’s fun said she
(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she
(let’s go said he
not too far said she
what’s too far said he
where you are said she)
may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she
may i move said he
is it love said she)
if you’re willing said he
(but you’re killing said she
but it’s life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she
(tiptop said he
don’t stop said she
oh no said he)
go slow said she
(cccome?said he
ummm said she)
you’re divine!said he
(you are Mine said she)
e.e.cummings
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“we know a place where no planes go”
e é onde agora vivo. Fora do mundo. Enquanto à minha volta e dentro de mim tudo o que era certo desaba e o espanto de existir me reencontra a cada instante. Dizia no início do ano que tinha a incorporar coragem, independência e alegria. E estou. Devagar a deixar que as três ganhem raízes na terra por vezes movediça, por vezes árida, por vezes fértil que me compõe. De tudo o que desabou e dos novos e leves rebentos que despontam, algo permanece. A tal história de alguns de nós serem reagentes e outros agentes, de essência boa ou má mas inalterável. A minha é esta:
“Não sei se por descender de artistas de circo, de crianças em fuga, de mulheres sem sossego nem salvação e de homens que mil vezes apostaram a vida perdendo sempre, piso sem medo este arame fino e farpado. Sem hesitações nem passos em falso. A rir bem alto de quem teme por mim e a fingir que sei muito bem para onde vou. O segredo é ser leve e não me levar muito a sério. Não conquisto nada que sirva para a troca, mas também não consigo pensar em nada que queira em troca. Porque assim habito esta tenda imensa e assim lhe coso em segredo os rasgões causados pelos sobressaltos do caminho. Não sei se por a maldição saltar geração sim geração não e eu ser da não, sinto-me abençoada com uma imunidade que permite enfiar a cabeça bem fundo na boca das feras, dar piruetas em círculos de fogo, desafiar o trapézio sem rede e desdenhar os palhaços, tão pouco atléticos e tão patéticos. Porque um dia me segredaram que pouco depende de mim, que existem trilhos a seguir, falsas pistas a evitar, bênçãos a agarrar com muita força na altura certa. E pouco mais.” reloaded, editado a 28/04/2008. Ainda aqui estou.
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Abençoados. Os que conseguem seguir em linha recta sem fazer perguntas daquelas que fazem comichão. Os que ignoram abismos e não espreitam pela porta proibida. Os que conseguem não virar do avesso o que amam, não escarafunchar e querer conhecer tudo, em especial o que doi e incomoda. Os que tapam as feridas em vez de as expor em praça pública, os que não trazem nas mãos o coração aberto ao vento, são sensatos e nunca traíram ou mentiram. Os que conseguem viver mais ou menos, gostar mais ou menos, foder mais ou menos. Os que nunca sofrem insónias, nunca bebem demais nem levantam a voz. Abençoados esses que nunca cruzaram a ténue linha que nos separa da loucura, nunca questionaram se essa linha será mais à frente mais ao lado, ou mesmo aqui. Os que não ouvem mil vezes canções que fazem mal e sempre se inibiram de escrever versos medíocres. Abençoados. Parece-me bem que é deles este reino da terra.
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“I am just learning to ride my own wild horses” dizia eu ao Jean Paul Belmondo. Ao que ele respondeu “Dance it as it comes” enquanto me oferecia um cigarro. O Cohen cantava a meu pedido o “Chelsea Hotel” pela nona vez. Não estávamos num barco mas via-se pela janela um mar muito escuro e um glaciar. Lembro-me de ter olhado para o glaciar e pensado no aquecimento global. Ao décimo “Chelsea Hotel” apareceu o Bono muito zangado. Que já era a segunda vez que plagiava o título de uma canção, ainda por cima adulterando-o. Uma vez no blog, agora aqui em frente ao Cohen. Que ao menos colaborasse na luta da sua vida. E obrigou-me a assinar contrafeita uma petição qualquer para perdoar a divida a África, sob ameaça de fechar as cortinas e esconder a vista do glaciar caso eu não assinasse.
…o mundo onírico é muito estranho.
learning to ride my own wild horses
uma fotografia. a fingir que estou de ânimo leve quando um cantinho da alma me pesa toneladas insuportáveis. o cantinho preferido. se fumasse era ocasião para um cigarro no jardim. a lamentar a rúcola que está tão seca. mas a gabar os tomates que se vão safando. se fumasse era mesmo ocasião para um cigarro. seria o meu oráculo na ausência das vozes mais queridas. a almofada para mim nunca é boa conselheira. baralhar e voltar a dar. dedos cruzados por um trunfo ou dois. à falta de sorte, que tal um bocadinho de batota?

