Category Archives: Ilusões que salvam

Entre dois golinhos

da tua bebida preferida, lembro-me de ti com mais força que o costume. Enquanto debaixo de um sol bom e inesperado, exploro uma cidade deconhecida. Gosto que seja assim: por mais propício que o teu adeus tenha sido a tragédias murmuradas continuas a ser para mim festa, alegria, gargalhadas. É para ti que sorrio às escondidas no meio do barulho de jantares confusos, no lento espreguiçar de esplanadas, entre golinhos de bebidas fescas.

E tenho a certeza, ao olhar para anjos de cobre das catedrais da tal cidade: és um deles. O meu.

Deixe um comentário

Filed under Ilusões que salvam

27(2) – Inventário de tanto/tão pouco

Retenho da vida Pedacinhos pequeninos de beleza adormecida Que têm de ser chocalhados Transformados para se revelar Purpurinas douradas do Carnaval mais banal Duma qualquer Lolita de trazer por Casa Pedacinhos de morder gomas ácidas fluorescentes Tão ácidas como petazetas Polaroids envelhecidas com cabeças cortadas e Sorrisos Que nunca mais vou ver nascer Fotografias mal tiradas que o talento é pouco A que acrescento comentários cómicos ou ternurentos E que aprisiono em álbuns escondidos Que com o passar do tempo se tornam Bolorentos Objectos de plástico De cores berrantes e utilidade Misteriosa Alguns foram brindes de chocolates infantis Outros pechinchas de brique-a-braque Mil ervinhas diferentes No mesmo boião Onde as propriedades se confundem E onde um dia a tília Se tornará estimulante Pedrinhas erodidas e conchinhas partidas da beira-mar na maré mais baixa Aprisionados em tacinhas de vidro liso muito Transparente Pedacinhos de madrepérola rasgados e secos Presos em fio de pesca para bloquear as moscas Momentos imperfeitos, incompletos de tão reais Que recorto e reconstruo no estúdio da memoriam E que recordo com estrutura ilusória e definida Inspirada noutras vidas noutros gestos Talvez até no cinema ou num episódio feliz da mais recente novela das oito papelinhos escritos por pessoas meio difusas cujo nome ecoa incerto num canto remoto da minha cabeça Momentos e gestos ínfimos Sequências mágicas, instantes perfeitos Aqueles dias, aquelas noitesEm que tudo o que acontece é tão natural e Bonito Aqueles dias, aquelas noites em que mesmo Sabendo que tudo está a mudar Nos deixamos invadir pela Apatia Aqueles rostos que não me largam e nem sonham Aquelas mãos tão grandes e quentes que um dia Me contiveram Aqueles olhos anónimos que um dia me fizeram Chorar Equilibristas trapézios que me fizeram nascer As cores fortes daquele quadro que me faz sorrir Os primeiros acordes da música que mais gosto de ouvir Orquídeas raras carnívoras e malmequeres O amanhecer inesperado quando a noite passou sem pesar A forma como o tempo saltita com as pessoas que gosto de conversar As nossas noites ao relento a refilar do frio e o amanhecer à beira-mergulho Que se lhes seguiu O cansaço bom depois de nos consumirmos Com a sede típica de quem ama muito A organização caótica em que disponho o que é meu o ritmo aos arranques com que trabalho e vivo s teus olhos que às vezes estão quase a chorar nunca mas nunca os vi de tristeza são verdes tão verdes como musgo de natal grandes tão grandes que nunca vão ver mal sorriso mais lindo numa foto recente e uma pessoa antiga que me moldou a vida sua assinatura aprendida a ferros e tremida paladares quentes que sabem a lareira calma confortante de um chá feminino e familiar onde numa ponta da mesa está a prima mais nova E na outra a avó babosa

Deixe um comentário

Filed under Ilusões que salvam

Jack Vettriano – The singing butler

Deixe um comentário

Filed under Ilusões que salvam, Sem-categoria

Viveste muito e dormiste pouco.Quanto e como quiseste. Foste brilhante e rápido, recto e terno, quente e incisivo. Deixaste um rasto de emoções fortes e contraditórias.

Decidi hoje que eras do signo Cometa e o facto deste signo não existir no horóscopo só reforça a minha decisão.

Vou assim começar a olhar para o céu com outros olhos, quem sabe o rasgues uma noite destas, quem sabe o risques com o teu brilho e reflectido nas minhas pupilas me faças sentir de novo o calor muito apertado do teu abraço.

1 Comentário

Filed under Ilusões que salvam


As velhinhas da aldeia, que ao fim da tarde sempre se reuniam nas escadas toscas e musguentas da pequena igreja, benziam-se à sua passagem. Ficava triste, o luto delas e as suas mãos outonais lembravam-lhe a avó. Queria, por isso, agradar-lhes. Percorria a rua da igreja a pensar em esquemas, presentes, conversas que as fizessem gostar dela. Nem via o Zé do Café Central que lhe acenava e de tão concentrada nas suas intenções nunca reparou na minúscula vista do triângulo verde de serra entre a esquina da mercearia e a sua casa. Mas esquecia tudo assim que entrava em casa e os encontrava. Sempre cansados do trabalho agrícola, a que se começavam a habituar muito lentamente, sorriam-lhe do sofá entre mantas e botas lamacentas. Faziam juntos o jantar com produtos da horta. Já sabiam que tudo tinha de ser bem lavado de terra e minhocas, coisas que antes nunca lhes ocorrera estarem associadas às couves. Bebiam café no terraço em silêncio e em silêncio fumavam o último cigarro do dia. Um deles arrumava a casa enquanto os outros dois verificavam as trancas da porta e do gado. Inspiravam a sorrir a mistura de lareira, mato e broas a que a aldeia cheirava nessa altura do ano e deitavam-se. Enroscavam-se os três e ternamente conversavam até adormecer, as mãos e as pernas enroladas, os lábios em feitio de segredo. Só na próxima tarde ela se voltaria a sentir tentada a agradar às velhinhas que se benziam à sua passagem.

Deixe um comentário

Filed under Ilusões que salvam

“Epitaph for my heart”*Bebia muito e muito forte, nada de misturas nem “cocktails” da moda. Bebidas puras e transparentes directamente do frigorífico que só alojava líquidos.

Falava muito e muito alto. Tudo o que pensava mesmo que em segundos se contradissesse. Fazia amigos de circunstância em todo o lado, o seu encanto bruto e puro atingia todo o espectro humano.

Fodia muito e muito bem. Com as mulheres mais estranhas que encontrasse pelo caminho. Apaixonava-se com a força e a brevidade de um furacão. Nunca precisou de iludir ninguém, preferindo as que as outras, com rancor, chamavam putas e que ele sabia serem apenas a sua versão de saias. Preferia os gatos aos cães e abominava trelas e gaiolas. Só o movia o inesperado e só conseguia agradar a quem não esperava nada dele.

Comia muito, sempre fora de casa e ria com alarido dos conselhos médicos. Fumava tudo o que fosse fumável, não exigindo nenhum cubanismo aos charutos nem laivos de cowboiada aos cigarros. Arrancava com desprezo e enfado o filtro a qualquer cigarro que lhe atravessasse o caminho. Engordou rápida e orgulhosamente, ganhando em proporção um brilho de contentamento de quem ia engolindo e saboreando o mundo. Nunca praticou um único desporto de grupo, tendo percorrido a pé, apenas pelo desafio, os Andes e tentado sem sucesso atravessar a nado o Canal da Mancha.

Só jogava jogos de azar, desprezando tudo o que, na vida, dependesse de estratégia. Conduzia tão rápido quanto conseguia e só parava para dormir. O estritamente essencial, precisando, mesmo para essas escassas horas, de auxiliares químicos dos mais fortes. Lia tudo o que conseguia, o olhar percorria as páginas a um ritmo irreal e bebia dos autores de eleição a beleza que lhe permitia enfrentar tristezas esporádicas mas profundas.

Dos sete pecados capitais permaneceu virgem à inveja e à avareza tendo-se embriagado com os restantes. De encontro a todas as previsões não durou muito. Ainda está na encruzilhada entre o céu e o inferno, à espera de saber se irá humanizar o primeiro ou denegrir o segundo. Deixou nos que o conheceram a muito ligeira sensação de terem pousado as pontas dos dedos na cauda do Diabo e de terem beijado a movimentos de pestana a sombra de Deus.

*Título roubado a uma canção dos Magnetic Fields. Stephen: Pá, se ficaste zangado infelizmente não vais poder ralhar comigo a 20 de Outubro em Lisboa. Vou estar exilada numa ilha cinzenta.

Deixe um comentário

Filed under Ilusões que salvam

Onde estão agora as tuas mãos, que me pareciam tanto folhas de Outono que por vezes dava por mim com medo que se desprendessem dos teus braços e flutuassem lentamente até ao chão?

Qual é o chão que agora pisas com os passos lentos e dolorosos, com o desequilíbrio que tentavas disfarçar?

A quem contas agora as tuas histórias tão antigas? Quem te faz o chá quente, verde e muito doce como gostavas? A quem estendes agora pacotes de bolachas às escondidas?

Como ousaste partir desta maneira, desvaneceste-te no tempo até ficares transparente?

E agora o que resta de ti é uma caixa vazia e um papel onde ensaiavas teimosamente a tua assinatura que aprendeste sozinha.

Deixe um comentário

Filed under Ilusões que salvam